Ani Cuenca: a tensão que organiza, a harmonia que resiste
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Redação e pesquisa: Equipe editorial da Area TemporalArquivo: Convocatória Mapeamento Artístico 2026
Na prática de Ani Cuenca, a matéria situa-se no centro da construção de sentido. Sua formação em arquitetura permanece como uma base estrutural — ritmo, suporte, relação entre partes —, mas deslocada para um campo onde a estabilidade deixa de ser um objetivo e converte-se em uma condição em constante negociação. Seu trabalho organiza-se a partir de sistemas que se sustentam por tensão interna, repetição, encaixe e fricção.

A linguagem que acompanha suas obras reforça essa lógica. Títulos como Inventário de fricções ou, em Eixo de permanência, a pergunta — “quanta fricção preciso para me manter de pé?” — adquirem uma dimensão espacial concreta ao se desdobrarem como uma coluna que conecta chão e teto. A obra ativa uma relação direta com a arquitetura: não como fundo, mas como interlocutora. A verticalidade, um dos gestos mais primários da construção arquitetônica, aparece aqui submetida a condições instáveis, onde sustentar-se implica negociar constantemente com a gravidade, o peso e o desgaste.
O nome concentra essa tensão. “Eixo” remete à estrutura, alinhamento, suporte; “permanência” sugere duração. Contudo, o que está em jogo é a fragilidade dessa promessa. A coluna não se afirma a partir da solidez tradicional, mas da acumulação de materiais de fricção: lixas, rebolos abrasivos, elementos industriais e cera. São materiais associados a processos de desgaste, polimento e erosão. Sua presença em uma estrutura vertical introduz uma contradição produtiva: aquilo que desgasta participa da possibilidade de sustentar.
A cera incorpora outra camada. Funciona como elemento de fixação e, ao mesmo tempo, como matéria vulnerável ao calor, ao tempo e ao contato. Registra, absorve, pode ceder. Nesse cruzamento entre o industrial e o maleável, a coluna configura-se como um sistema em que a estabilidade não está dada, mas depende de um equilíbrio ativo entre forças e materiais.
Assim, a obra estabelece um diálogo direto com a arquitetura a partir de um lugar deslocado. Não replica suas lógicas de permanência, mas as coloca à prova. A verticalidade deixa de ser garantia e converte-se em uma pergunta sustentada no espaço. Inclusive Sem título funciona como uma decisão que concentra a atenção na experiência material e nas relações ativadas no espaço.

Sua escolha de materiais define o núcleo de sua prática. Lixas, pedra-pomes, cera, metais, tecidos e objetos domésticos carregados de uso configuram um vocabulário em que desgaste e contato são fundamentais. A lixa, em particular, atravessa seu trabalho como superfície e como estrutura. A fricção aparece como uma condição constante: ativa relações, deixa marcas, constrói continuidade. A cera introduz outra temporalidade, absorve, fixa, cede e registra. Os metais organizam, tensionam, contêm. Os tecidos e restos domésticos incorporam memória, uso e proximidade.

Esses elementos não se apresentam de forma isolada, mas articulados em sistemas nos quais repetição e variação geram ritmo. Em certas configurações mais abertas, a matéria se desdobra em trajetórias que percorrem o espaço e ativam tensões internas. Em outras, a acumulação modular constrói campos densos onde cada unidade mantém sua singularidade dentro de uma ordem geral. Em ambos os casos, a obra sustenta-se em um equilíbrio exigente, no qual cada elemento participa da estrutura.

A cor desempenha um papel decisivo nessa organização. Apresenta-se com sobriedade, sem excesso, mas com uma intensidade sustentada. As gradações, transições e contrastes constroem uma ordem cromática que articula a composição. Essa ordem nunca é rígida: mantém-se ativa por meio de pequenas variações, diferenças de textura e densidade. O resultado é um campo visual harmônico e vibrante ao mesmo tempo, onde a cor organiza sem neutralizar a matéria.
A prática de Ani Cuenca desenvolve-se, assim, como uma investigação sobre relações: entre materiais, entre forças, entre tempo e superfície. Suas obras estabelecem condições em que o desgaste permanece ativo, onde a memória se inscreve na matéria e onde a forma se sustenta em um estado de tensão contínua.




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