Ani Cuenca: A tensão que organiza, a harmonia que resiste
Atualizado: 30 de ago.
Redação e pesquisa: Equipe editorial da Area TemporalArquivo: Convocatória Mapeamento Artístico 2026
Na prática de Ani Cuenca, a matéria ocupa o centro da construção de sentido. Sua formação em arquitetura permanece como uma base estrutural — ritmo, suporte e relação entre as partes —, mas deslocada para um campo onde a estabilidade deixa de ser um objetivo e se torna uma condição em constante negociação. Seu trabalho organiza-se a partir de sistemas sustentados por tensão interna, repetição, encaixe e atrito.

A linguagem que acompanha suas obras reforça essa lógica. Títulos como Inventário de atritos ou Eixo de permanênciaapontam para uma questão recorrente: “quanto atrito é necessário para permanecer de pé?”. Em Eixo de permanência, essa pergunta adquire uma dimensão espacial concreta ao se desdobrar como uma coluna que conecta piso e teto. A obra ativa uma relação direta com a arquitetura: não como pano de fundo, mas como interlocutora. A verticalidade, um dos gestos mais elementares da construção arquitetônica, surge aqui submetida a condições instáveis, nas quais sustentar-se implica negociar constantemente com a gravidade, o peso e o desgaste.
O próprio título concentra essa tensão. “Eixo” remete à estrutura, alinhamento e suporte; “permanência” sugere duração. No entanto, o que está em jogo é a fragilidade dessa promessa. A coluna não se afirma pela solidez tradicional, mas pela acumulação de materiais de atrito: lixas, rebolos abrasivos, elementos industriais e cera. São materiais associados a processos de desgaste, polimento e erosão. Sua presença em uma estrutura vertical introduz uma contradição produtiva: aquilo que desgasta também participa da possibilidade de sustentar.
A cera acrescenta outra camada. Funciona como elemento de fixação e, ao mesmo tempo, como matéria vulnerável ao calor, ao tempo e ao contato. Registra, absorve e pode ceder. Nesse cruzamento entre o industrial e o maleável, a coluna configura-se como um sistema em que a estabilidade não está dada, mas depende de um equilíbrio ativo entre forças e materiais. Essa atenção às condições de estabilidade estende-se à própria escolha dos materiais. Cuenca trabalha com elementos atravessados por processos de desgaste, transformação e uso prolongado, interessando-se especialmente por aquilo que permanece quando uma função original se esgota. Lixas, cera, latão e objetos antigos aparecem não apenas por suas qualidades físicas, mas também pelas marcas que acumulam e por sua capacidade de evidenciar diferentes estados de tensão entre permanência e deterioração. Em sua prática, os materiais não são suportes neutros: preservam memórias, registram atritos e colocam em circulação questões sobre as formas precárias de sustentação que permitem que algo continue existindo apesar do desgaste.
Assim, a obra estabelece um diálogo direto com a arquitetura a partir de um lugar deslocado. Não reproduz suas lógicas de permanência, mas as coloca à prova. A verticalidade deixa de ser garantia e transforma-se em uma pergunta sustentada no espaço. Até mesmo o título Sem título funciona como uma decisão que concentra a atenção na experiência material e nas relações ativadas no espaço.

A escolha dos materiais define o núcleo de sua prática. Lixas, pedra-pomes, cera, metais, tecidos e objetos domésticos marcados pelo uso constituem um vocabulário em que desgaste e contato são fundamentais. A lixa, em particular, atravessa seu trabalho como superfície e como estrutura. O atrito aparece como uma condição constante: ativa relações, deixa marcas e constrói continuidade. A cera introduz outra temporalidade; absorve, fixa, cede e registra. Os metais organizam, tensionam e contêm. Os tecidos e vestígios domésticos incorporam memória, uso e proximidade.

Esses elementos não se apresentam de forma isolada, mas articulados em sistemas nos quais repetição e variação geram ritmo. Em determinadas configurações mais abertas, a matéria se desdobra em trajetórias que percorrem o espaço e ativam tensões internas. Em outras, a acumulação modular constrói campos densos nos quais cada unidade mantém sua singularidade dentro de uma ordem geral. Em ambos os casos, a obra sustenta-se em um equilíbrio exigente, no qual cada elemento participa da estrutura.

A cor desempenha um papel decisivo nessa organização. Ela surge com sobriedade, sem excessos, mas com intensidade constante. Graduações, transições e contrastes constroem uma ordem cromática que articula a composição. Essa ordem nunca é rígida; mantém-se ativa por meio de pequenas variações, diferenças de textura e densidade. O resultado é um campo visual simultaneamente harmônico e vibrante, onde a cor organiza sem neutralizar a matéria.
A prática de Ani Cuenca desenvolve-se, assim, como uma investigação sobre relações: entre materiais, entre forças, entre tempo e superfície. Suas obras estabelecem condições em que o desgaste permanece ativo, a memória se inscreve na matéria e a forma se sustenta em um estado de tensão contínua. Mais do que representar a permanência, exploram as estruturas frágeis que a tornam possível, revelando como determinados materiais continuam produzindo sentido mesmo depois que as funções para as quais foram concebidos ficaram para trás.




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