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Gustavo García Murrieta: ritual, dissidência e tecnologia como territórios de tradução simbólica

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Redação e pesquisa: Equipe editorial da Area TemporalArquivo: Convocatória Mapeamento Artístico 2026


A prática de Gustavo García Murrieta se constrói a partir de um território difícil de classificar. Sua obra não busca estabilizar símbolos nem fixar leituras; ao contrário, parece operar a partir da fricção entre linguagens, temporalidades e sistemas de crença que historicamente foram separados pelas estruturas ocidentais de representação. Nesse sentido, o trabalho do artista pode ser compreendido como uma prática de tradução simbólica: um espaço onde ritual, tecnologia, espiritualidade popular e pensamento queer coexistem como forças ativas dentro de uma mesma estrutura visual.


Longe de abordar o sincretismo apenas como uma referência estética, García Murrieta o utiliza como metodologia. Suas instalações, performances, esculturas e peças gráficas funcionam como dispositivos nos quais as imagens adquirem uma condição ritual mais do que representativa. Nelas, o espiritual não aparece como um elemento folclórico nem como uma reconstrução antropológica, mas como uma experiência contemporânea atravessada por corpos, afetos e memórias coletivas.


Rio Blanco (2019). Técnica gráfica mista
Rio Blanco (2019). Técnica gráfica mista
TLALOC / Gráfica digital impressa
TLALOC / Gráfica digital impressa

Grande parte de seu trabalho parece perguntar o que acontece quando práticas simbólicas camponesas, religiosas e populares são deslocadas do campo da tradição e reinseridas no espaço artístico contemporâneo. Essa operação não ocorre a partir de uma apropriação distante, mas de uma proximidade afetiva com os imaginários comunitários do México e da América Latina. O artista compreende esses saberes como tecnologias culturais vivas, capazes de produzir conhecimento, sensibilidade e formas alternativas de relação com o entorno.

Em obras recentes vinculadas à água, à terra e às divindades populares, o corpo aparece como um canal de mediação entre matéria e símbolo. Suas performances ativam estados de trânsito nos quais a identidade deixa de ser estável e passa a comportar-se como uma superfície permeável a forças naturais, espirituais e coletivas. Existe nessas ações uma dimensão quase cerimonial que transforma o espaço expositivo em um território de invocação e experiência compartilhada.


Performance: Sintonização à terra / Jardim das esculturas
Performance: Sintonização à terra / Jardim das esculturas

Outro aspecto central em sua prática é a relação entre materialidade e memória. Atualmente, sua pesquisa escultórica com tezontle introduz uma leitura geológica e territorial que dialoga com as camadas históricas do México: pedra vulcânica, corpo ritual e arquitetura simbólica convergem como elementos de resistência frente às narrativas homogêneas do progresso moderno. Nesse contexto, a tecnologia digital utilizada em seus processos gráficos não se opõe ao ancestral; ambas as dimensões convivem como parte de um mesmo ecossistema híbrido, no qual o contemporâneo é redefinido a partir de perspectivas não lineares.


Gallo 02 / Escultura com tezontle e espinhos
Gallo 02 / Escultura com tezontle e espinhos

A obra de García Murrieta também propõe uma revisão crítica das categorias que separam arte, artesanato e ritual. Seu trabalho desestabiliza essas divisões ao reconhecer práticas comunitárias e espirituais como formas legítimas de produção estética e política. A partir dessa perspectiva, sua investigação não apenas expande o campo visual contemporâneo, mas também levanta questões sobre quem detém o poder de definir quais formas de conhecimento são visíveis dentro do sistema artístico.

Mais do que produzir objetos fechados, o artista parece construir cenários de transformação simbólica. Espaços onde o corpo, a natureza e a espiritualidade funcionam como agentes ativos capazes de interromper as lógicas racionais e coloniais que ainda estruturam grande parte do pensamento contemporâneo.

 
 
 

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