Miguel Duque Nivia: arqueologias contemporâneas da matéria
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Redação e pesquisa: Equipe editorial da Area TemporalArquivo: Convocatória Mapeamento Artístico 2026
A obra de Miguel Duque Nivia propõe uma leitura contemporânea do artesanato como linguagem crítica e espaço de resistência cultural dentro da arte atual. Por meio da cerâmica e da ourivesaria, o artista desenvolve uma prática que recupera técnicas tradicionais não a partir da nostalgia, mas da possibilidade de reativar suas dimensões simbólicas, rituais e políticas no presente.
Suas peças — que oscilam entre o stoneware de alta temperatura, a cerâmica escultórica e procedimentos vinculados à tradição artesanal sul-americana — funcionam como objetos que parecem escavados de um tempo incerto. Nelas habita uma espécie de arqueologia contemporânea: formas zoomórficas, recipientes cerimoniais e estruturas híbridas que evocam vestígios pré-colombianos, instrumentos rituais ou relíquias pertencentes a uma civilização imaginada, embora profundamente conectada à memória material latino-americana.


O gesto de seu trabalho é essencial dentro dessa construção. As superfícies porosas, as assimetrias deliberadas e a presença visível da mão revelam um interesse em manter a marca humana dentro do objeto. Duque Nivia evita a neutralidade industrial para insistir na imperfeição como valor expressivo e político, reivindicando o ofício artesanal como um espaço onde tempo, corpo e experiência permanecem inscritos na matéria.
Em obras nas quais aparecem pequenos corpos animais, recipientes escultóricos ou formas que lembram instrumentos cerimoniais, o artista constrói um vocabulário visual que dissolve as fronteiras entre escultura, design utilitário, objeto ritual e arte contemporânea. Cada peça parece conter uma função perdida ou secreta, como se pertencesse a uma cultura suspensa entre o passado ancestral e uma ficção futura.

Essa abordagem dialoga diretamente com uma geração de artistas que busca desmontar as hierarquias históricas entre belas-artes e artesanato. No caso de Miguel Duque Nivia, a ourivesaria e a cerâmica deixam de ocupar um lugar periférico para converter-se no núcleo conceitual de sua investigação artística. A técnica não aparece subordinada à ideia; ao contrário, o conhecimento material transforma-se em pensamento, arquivo e discurso.
Sua experiência em distintas técnicas cerâmicas e em processos associados a comunidades artesãs e ourives da América do Sul fortaleceu essa relação com o ofício como forma de conhecimento. A investigação sobre métodos ancestrais, somada a uma compreensão contemporânea da escultura e do objeto, permite-lhe produzir obras onde tradição e experimentação convivem sem hierarquias.

Nesse sentido, a prática de Miguel Duque Nivia pode ser entendida como uma operação de ressignificação cultural: uma arqueologia sensível que recupera o poder simbólico da matéria feita à mão e reposiciona o artesanato como um dos territórios mais vigentes e radicais dentro da arte contemporânea.




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