Pedro Granados Thorin: a consciência como linguagem e resistência
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Redação e pesquisa: Equipe editorial da Area TemporalArquivo: Convocatória Mapeamento Artístico 2026
No contexto da arte contemporânea latino-americana, a obra de Pedro Granados Thorin distingue-se por uma prática multidisciplinar que articula de maneira rigorosa o material, o audiovisual e o teórico. Seu trabalho não apenas transita entre diferentes linguagens — como a pintura, a cerâmica e o videoarte —, mas as integra como sistemas complementares de investigação. Mais do que centrar-se na identidade como eixo, sua prática organiza-se em torno da consciência, entendida como um fenômeno que opera em diferentes escalas: do íntimo e perceptivo ao coletivo, político e ambiental.

Um dos aspectos mais relevantes de sua produção reside no uso do vídeo como dispositivo de tradução e expansão. Em suas propostas audiovisuais, o artista constrói narrativas que deslocam suas investigações para o social, o político e o ambiental, inserindo-se nas lógicas contemporâneas de produção e consumo de imagens. O vídeo não funciona apenas como suporte, mas como um campo onde a linguagem previamente desenvolvida em outros meios adquire uma dimensão narrativa, teórica e abertamente crítica. Obras como Agua En Amenaza e Los Monocultivos de la Mente evidenciam essa tomada de posição, articulando uma consciência situada em torno do território, dos conflitos ecológicos e das estruturas de poder.
Em contraste, a cerâmica configura-se como o ponto de partida dessa investigação: um espaço de exploração intimista onde a consciência manifesta-se como experiência expandida. Por meio da argila, o artista ativa uma linguagem que evoca formas de pensamento vinculadas a tradições milenares. Suas peças — distantes do utilitário — materializam-se em rostos e configurações próximas à fractalidade, sugerindo estados de percepção que remetem a cosmologias ancestrais e a noções de expansão da consciência, hoje reconfiguradas em um contexto global. Sem recorrer à apropriação, sua prática estabelece uma ressonância com esses saberes, reconhecendo neles uma via para pensar o latino-americano a partir do presente.

Nesse sentido, a cerâmica não apenas dialoga com a arte e a tradição, mas tensiona os limites entre o artesanal e o artístico. Ao situar essas formas dentro de um marco contemporâneo, o artista questiona as hierarquias históricas do campo da arte e evidencia as relações de poder que o atravessam. A matéria converte-se, assim, em um dispositivo crítico: um lugar onde o técnico, o simbólico e o político operam simultaneamente.

A pintura, por sua vez, funciona como um espaço de transição e interlocução. É o meio onde essa linguagem — carregada de ressonâncias simbólicas e perceptivas — desloca-se para uma consciência crítica. Por meio de um traço autoral consistente, o artista articula uma visualidade que conecta essas dimensões a problemáticas mais amplas, vinculadas ao social e a uma consciência crítica situada nas tensões da contemporaneidade. A pintura não apenas sintetiza, mas ativa um limiar: traduz o ancestral em um campo de enunciação onde emergem formas de denúncia e pensamento crítico.

Essa articulação entre disciplinas não responde a uma lógica de meios isolados, mas a um sistema escalonado de pensamento. A cerâmica ativa a consciência a partir do perceptivo e do simbólico; a pintura a desloca para uma dimensão crítica; e o vídeo a expande para o coletivo, onde adquire um caráter conceitual e político. Em conjunto, sua prática configura um corpo de obra coerente que propõe uma leitura da consciência como campo em transformação, atravessado pelo território, pela história e pelas dinâmicas contemporâneas.
Outro elemento-chave de seu trabalho é sua articulação social. Sua produção não se limita aos espaços convencionais da arte, mas expande-se para contextos diversos, reforçando a dimensão pública de suas investigações. Essa abertura sustenta-se também na escrita de ensaios, nos quais o artista desenvolve um pensamento que acompanha e aprofunda sua prática visual, situando-a em diálogo com debates atuais da filosofia contemporânea.
Nesse sentido, sua obra adquire uma relevância particular no panorama latino-americano: não apenas por abordar problemáticas urgentes como a crise ambiental ou as tensões territoriais, mas por propor uma compreensão da consciência como eixo para pensar a experiência contemporânea. Do íntimo ao coletivo, seu trabalho traça um percurso onde imagem, matéria e pensamento convergem como ferramentas para interrogar o presente.




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