top of page

Thamiris Mandú: A qualidade coreográfica da argila

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Redação e pesquisa: Equipe editorial da Area Temporal Arquivo: Convocatória Mapeamento Artístico 2026


Na prática escultórica de Thamiris Santos Dias, a cerâmica deixa de ser apenas um suporte material para tornar-se um território de transmissão, memória e reconfiguração identitária. Suas peças parecem emergir de um tempo profundo: não operam como objetos fechados, mas como corpos atravessados por rastros, tensões e presenças que insistem em permanecer. O barro, trabalhado manualmente e misturado em diferentes tonalidades, funciona em sua obra como um arquivo sensível onde convergem heranças afro-diaspóricas, experiências corporais e memórias históricas fragmentadas.


As esculturas de Mandú revelam uma relação orgânica entre contenção e transbordamento. As formas se dobram, se abrem ou se erodem como se estivessem em um processo constante de transformação. Nelas, a superfície nunca é neutra: as variações cromáticas do barro e as áreas queimadas ou rugosas evidenciam fricção, sedimentação e trânsito. Essa dimensão material não é apenas formal, mas também política e afetiva; a mistura de argilas converte-se em metáfora de identidades híbridas, marcadas por cruzamentos raciais, culturais e temporais que desafiam qualquer noção fixa de origem.


Cíclico 10 / Técnica de acordelado, cerâmica. 2025
Cíclico 10 / Técnica de acordelado, cerâmica. 2025

Ao longo de sua produção, surgem cavidades, extensões fibrosas e aberturas que evocam órgãos, raízes, recipientes ou vestígios arqueológicos. Sem representar literalmente nenhuma dessas formas, as esculturas habitam um limiar entre o humano, o vegetal e o ritual. Há nelas uma insistência em pensar o corpo não como entidade autônoma, mas como um território atravessado por memórias coletivas. As fibras que irradiam de algumas peças sugerem conexões invisíveis, prolongamentos sensíveis que expandem o objeto para o espaço, como se cada escultura mantivesse uma relação ativa com aquilo que a circunda.


Detalhe – Colheita / Técnica de acordelado, cerâmica. 2025
Detalhe – Colheita / Técnica de acordelado, cerâmica. 2025

Colheita / Técnica de acordelado, cerâmica. 2025
Colheita / Técnica de acordelado, cerâmica. 2025

Sua experiência na dança e na performance também atravessa a construção do volume. As obras possuem uma qualidade coreográfica: parecem conter gestos retidos, movimentos interrompidos ou respirações suspensas. A modelagem manual preserva a marca do contato e reforça a dimensão tátil de uma prática que compreende a terra como corpo vivo e como dispositivo de escuta ancestral.


érie: Cilos – Ecdise / Modelagem, cerâmica. 2025
érie: Cilos – Ecdise / Modelagem, cerâmica. 2025

Mais do que reconstruir uma memória perdida, a obra de Thamiris Mandú ativa formas de permanência. Suas esculturas não buscam ilustrar a ancestralidade, mas produzir um espaço onde aquilo que foi silenciado possa novamente adquirir matéria, peso e presença. Nesse gesto, seu trabalho articula uma investigação profundamente contemporânea sobre as políticas do apagamento, a transmissão afetiva e a potência simbólica da terra como arquivo vivo.

 
 
 

Comentários


Àrea temporal © 2020 - 2026  Política de Privacidade

  • Instagram
bottom of page